O curioso caso da intelligentsia brasileira que celebra Biden: A geopolítica das fachadas progressistas

Imagem retirada do site da BBC

07 de novembro de 2020;

A — Contexto

1- Dada a importância geopolítica dos Estados Unidos da América, suas eleições são costumeiramente acompanhada por boa parte do mundo, afinal, o escolhido, será o símbolo de uma das grandes potências econômicas e militares existentes, e também, a troca de pessoas no cargo de Chefe de Estado, pode significar a troca de aliança entre governos e a mudança no projeto de política externa.

2- É notório que os Estados Unidos da América após a II Guerra Mundial, iniciaram uma odisseia de dominação pós colonial sobre o 3° mundo, sob a desculpa de evitar o crescimento do socialismo.

Os horrores da guerra que haviam afetado os Europeus, colonizadores do mundo, incitando a busca pela construção de uma nova Era, onde tamanha violência e destruição não pudesse estar presente. O cavalo de troia, no entanto, era que repudiar a violência que sofreram, era também reconhecer a desumanidade do colonialismo que impuseram por séculos, por consequência, as próprias colônias passaram a reivindicar sua soberania, seu direito de independência e liberdade.

Por óbvio, os exploradores tentaram a resistência às revoluções nacionais das colônias, normalmente por meio da força, porém, uma estratégia essencial utilizada pelos EUA para contornar o gasto do conflito direto, era financiar, ora oposições, ora políticos que defendiam a independência formal, sem contanto, alterar as estruturas de exploração econômica externa, a desorganização política causada pela sua interferência favorecia a vitória dessa estratégia, de onde também surgiu a famosa frase que a resumia “Dividir para conquistar”.

3- A influência mundial não se continha apenas na política, mas também, no que concerne ao modo de pensar e se comportar; transmitir através dos meios de cultura disponíveis a romantização do seu modo de viver, pensar, agir e vestir, como estratégia de formação, de uma sociedade que deseja receber essa influência estrangeira, que fetichiza os aspectos da cultura alheia, imaginando um mundo sem raízes culturais.

4- O desenvolvimento da mídia e da tecnologia levou a um novo tipo de ação no escopo da dominação geopolítica, a guerra de informação e da narrativa histórica, passando ao financiamento de autores intelectuais, artistas e a imprensa, para promover ou difamar o que fosse conveniente.

PARTE II

“E as eleições? qual a relação?”

  • Vamos chegar lá!

Nas eleições do governo Obama, é aonde a narrativa histórica se torna essencial para se compreender o panorama político da eleição de 2020.

Antes de eleito, o candidato Barack Obama se tornou um dos grandes atrativos, por, além de ter um discurso coerente, alinhado com o que é visto como politicamente correto, potencialmente, seria o símbolo do progressismo mundial, o primeiro presidente negro de em um país de forte tradição escravista, onde o racismo ainda é uma questão latente.

Embora houvesse grandes expectativas, inclusive no mundo árabe, do progressismo de Obama, sua benevolência pareceu tentar tocar somente o solo americano, sua política externa foi agressiva de modo:

1- Não ter passado 1 dia sequer sem estar em guerra;

2- Ordenando mais ataques do que o próprio presidente Bush;

3- Autorizado bombardeio em 7 nações árabes;

4- Aumentando em 3x o número de militares no Afeganistão,

5- Aumentando significantemente o número de ataques desumanos feitos por drones;

6- Sendo o primeiro presidente a autorizar a morte de um cidadão estadunidense em outro país;

7- Financiando queda de regimes políticos como na Líbia, a tentativa na Síria e em outros países, tendo participação também no golpe de 2016 no Brasil;

8- Intensificando a pressão econômica na Venezuela.

Mesmo com um currículo manchado de pólvora e sangue, seu status de progressista ainda se sustenta através de suas aparições públicas onde pode dar belos discursos humanísticos, enquanto sua conduta foi outra, fazendo da propaganda política seu principal instrumento de blindagem, sendo, até adotado por alguns movimentos, realmente como símbolo de progresso.

PARTE III- Biden X Trump

1- Sem mais enrolação desnecessária, independente de quem assumisse a presidência norte americana, a influência do setor empresarial de lá é forte, fazendo com que, qualquer pessoa do cargo, tenha de prolongar o projeto global de expansão imperialista dos EUA, com pouca flexibilidade para mudança na agenda, no que se trata da política externa.

2- No jogo da Geopolítica, os recursos e a economia são muito importantes, não há vilões, há nações que se aliam ou confrontam em busca da satisfação de seus interesses, e estar entre o topo do jogo político mundial, como esta os EUA, pode requerer a realização de atos reprováveis internacionalmente para manutenção do stablichmeant.

3- Trump é um candidato que notoriamente exprime a ideologia da elite burguesa americana, banhada de racismo e xenofobia, com discursos grosseiros que beiram a estupidez, alguém que, com toda certeza, tentou dar continuidade ao projeto de expansão da cultura liberal pelo mundo, porém, inesperadamente, protagonizou uma guinada no modo de fazer política. Trump tirou do escopo a priorização da expansão do império, especialmente após o rompimento com o conservador Bolton, direcionando uma política menos globalistas, se voltando para algumas questões internas (ainda que também não seja um excelente estadista)

4- Por óbvio que se utilizou de ataques ao Irão, pressão na Venezuela e a difamação da China na guerra comercial, para elevar sua moral política conforme se aproximava das eleições, no entanto, não consegue disfarçar sua antipatia com a Europa, enfraquecendo o eixo de dominação unipolar.

5- Já o Biden, repetindo o fenômeno Obama, a figura vista como o progressista, a oposição à completa barbárie, sob um discurso que abarca as questões de identidade das minorias, e todo o aparato do politicamente correto, sua atuação política tem demonstrado contradições com seu discurso:

A- Votou como senador à favor da invasão genocida ao Iraque, e já falava nesta intervenção anos antes dela ser proposta, sugerindo a queda do regime Hussein.

B- Mostra uma postura hostil à soberania da Venezuela, tendo se pronunciado diversas vezes que pretende manter as sanções, já deu suporte abertamente à tentativa de golpe de Juan Guaidó e acusa governo Trump de ter contribuído para o fortalecimento do regime Maduro.

C- Acusado diversas vezes de assédio sexual.

D- Em uma edição da Foreing Affairs defendeu as intervenções estadunidenses ao Oriente Médio, inclusive o cruel confronto que está ocorrendo no Iêmen.

E- Já declarou que os EUA priorizariam o compromisso com o combate a corrupção, combate ao totalitarismo e promoção dos Direitos Humanos; todos argumentos que já foram utilizados para promover invasões e intervenções que trouxeram séculos de retrocesso aos países.

F- Afirmou que se eleito mudará a postura conivente com Cuba, por lá não estar evoluindo nas liberdades e direitos.

6- A grande questão que resta: “OK, ambos tem posturas imperialistas, sendo pequenas diferenças, então, o Joe Biden é melhor, por pelo menos se preocupar com as minorias?”

Na verdade, a pequena diferença que há entre eles, é a observação geopolítica e histórica que pode mudar essa percepção.

A postura de Trump a se voltar ligeiramente para o protecionismo interno, reduzindo o foco do expansionismo imperialista mundial (ele não deixou de ocorrer, mas, não se compara em intensidade aos outros governos), tem permitido que diferentes polos políticos ganhassem maior notoriedade nas negociações mundiais, o contínuo crescimento do eixo China-Rússia. O próprio Trump se mostrava aberto a negociações, mesmo com a Coréia Popular

7- Do outro lado, Biden mostra seu anseio pelo retorno da política de expansão global do império econômico estadunidense, se mostrando amplamente aberto à realização de intervenções internacionais.

Se por um lado, comemoramos o fato dele discursar contra o racismo, a favor dos direitos de qualquer minoria, provavelmente, esquecemos que assim como Obama, ele deve se referir aos cidadãos de seu país, pois para o nosso, o 3° mundo, está reservado a acusação de violar Direitos Humanos para conseguir permissão gratuita de invadir e saquear, está reservado a intervenção na política através do financiamento para formação política de jovens da periferia para os transformar em advogados de suas medidas liberais.

Está reservado o direito de ver repetindo o Lawfare que observamos na Lava Jato, onde agentes que deveriam proteger nosso Estado no cenário internacional, estava ajudando empresas estrangeiras a processar nossas estatais, saqueando boa parte do dinheiro “recuperado” da corrupção, realizando também, o desmonte do nosso setor nuclear e petrolífero.

8- Não se deve analisar o caso Biden, esquecendo da experiência Obama, um homem que discursou belamente sobre racismo, sobre a importância da mulher; mas nos deixou a dúvida se os negros, as mulheres, os homossexuais do Afeganistão, Paquistão, Líbia, Iêmen, Somália, Iraque e Síria, receberam a dignidade e os direitos humanos que lhes foi prometida em seus discursos após incessantes bombardeamentos em zonas civis.

9- Dar suporte ao Biden, para contrariar o asno entreguista do Presidente Bolsonaro é estratégia fútil, de perspectiva limitada, que se torna ainda pior, pelas pessoas que estão romantizando a ascensão da Vice-presidente somente pela sua etnia.

10- Não se deveria romantizar países que ameaçam nos prejudicar internacionalmente por como manejamos nossas riquezas naturais, isso é de nosso, exclusivamente nosso interesse! Está sob nossa soberania!

Não se deve concordar em nenhuma vírgula com a política ambiental suicida da estúpida gestão miliciana do governo Bolsonaro, no entanto, não deveria ser direito de outras nações impor algo contra nossa soberania, no fim, as sanções e pressões, serão sentidas pelo trabalhador comum, não pelo enriquecido responsável pelo desmatamento, esse irá somente enfrentar a violenta baixa no preço de seu produto.

11- Os EUA tem um histórico gigantesco de interferência e interesse na Amazônia e na Amazônia Azul brasileira; alias, sr. Biden militar pelo ambiente e por todas estas pautas identitárias que dá suporte, só deveria levantar a suspeita de que esses serão os motivos (desculpas) que usará para saquear os países de seu interesse.

Sendo o Brasil um país latino em desenvolvimento, causa certa curiosidade, e temor, observar os grupos organizados da esquerda, demonstrarem suporte à política de expansão globalista do império, ainda mais, tendo o Brasil sido torturado com essa política tão recentemente com o golpe de 2016, o saque e de dinheiro e desmonte de políticas públicas ocasionados por algumas figuras chaves da Operação Lava a Jato.

É curioso o caso da esquerda que não conseguiu ver em Trump, a possibilidade do crescimento de outros polos geopolíticos que poderíamos nos aliar para clamar a soberania nacional. Mais curioso ainda, o caso daqueles que não temam que países sejam destruídos e saqueados para promover Direitos Humanos, ou combater a corrupção.

Essa opção causaria um grande tiro no pé, se de fato não causar abalo algum ao presidente brasileiro, afinal, não são poucas vezes que governos que pareciam rivais, terminaram em fotos abraçados.

Caso algum dos que se enquadraram nesse caso clínico curioso possa ler isso, espero que não entenda em tom de ofensa, e não espere se vingar, aqui há somente uma amostrar de uma narrativa pouco contada.

Camarada Lado B, 2020

> Alguns links úteis:

Em defesa da soberania e das riquezas nacionais. Um grito silenciado do povo, pela justiça e pela nação.

Em defesa da soberania e das riquezas nacionais. Um grito silenciado do povo, pela justiça e pela nação.